Cármen Lúcia ganha peso decisivo na disputa entre Moraes e Mendonça no STF

Segundo a Folha, ministra vê problemas na atuação dos dois colegas e evita alinhamento automático; posição pode influenciar a resposta do Supremo à crise do caso Master.

A ministra Cármen Lúcia ganhou peso decisivo na disputa interna que opõe Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Segundo apuração publicada pela Folha de S.Paulo neste domingo (6), ela vê problemas na atuação dos dois colegas e, até agora, não se alinhou de forma irrestrita a nenhum dos lados.

A posição da ministra passou a ser acompanhada com atenção porque pode influenciar a correlação de forças no plenário quando chegarem à Corte questões relacionadas às investigações do caso Master, aos métodos atribuídos a Mendonça e ao uso do inquérito das fake news por Moraes para pedir apuração sobre o colega.

Não há voto antecipado. As informações sobre a avaliação de Cármen Lúcia vêm de relatos de bastidores. A ministra não anunciou publicamente como votará em eventuais processos que envolvam Moraes ou Mendonça.

Folha diz que Cármen vê erros dos dois lados

De acordo com a Folha, Cármen considera que houve problemas tanto na atuação de Mendonça quanto na reação de Moraes. A ministra estaria preocupada com o efeito da crise sobre a imagem institucional do Supremo e com o risco de uma disputa entre grupos passar a orientar decisões que deveriam ser tomadas caso a caso.

Leituras sobre o tamanho de cada bloco variam entre os veículos. A CNN Brasil informou recentemente que Mendonça enfrentava cenário desfavorável para levar adiante uma investigação contra Moraes e que Cármen poderia se tornar decisiva. Essas contagens são avaliações de bastidor e não equivalem a votos formalmente declarados.

Crise envolve caso Master e atuação dos ministros

A divisão se aprofundou após a divulgação de relatórios da Polícia Federal relacionados ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Mendonça, relator de investigações ligadas ao caso, passou a ser questionado por colegas sobre procedimentos adotados na apuração.

Ao mesmo tempo, Moraes passou a enfrentar questionamentos sobre mensagens atribuídas a interlocuções com Vorcaro e sobre sua reação ao trabalho conduzido por Mendonça. O presidente do STF, Edson Fachin, chegou a cobrar explicações de Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e da direção da PF no contexto da crise.

Relatórios utilizados contra Mendonça também foram objeto de controvérsia porque documentos da própria PF afirmavam não ter valor probatório. O HD Fato mostrou que relatórios usados por Moraes contra Mendonça traziam essa ressalva.

Cármen também relata Código de Ética do STF

A posição institucional de Cármen ganhou ainda mais relevância porque ela é a relatora da proposta de Código de Ética do Supremo. A relatoria foi anunciada oficialmente pelo presidente da Corte, Edson Fachin, na abertura do Ano Judiciário de 2026.

O texto pretende consolidar regras sobre integridade, transparência e conflitos de interesse. Mendonça tem defendido publicamente a adoção do código, enquanto há resistência de parte do tribunal a uma regulamentação mais detalhada da conduta dos ministros.

Por que Cármen virou peça-chave: além de não estar identificada publicamente com um dos dois grupos, ela ocupa posição central na discussão sobre regras de conduta do próprio STF. Isso aumenta o peso político e institucional de suas futuras manifestações.

Pressão externa cresce

A disputa dentro do Supremo também passou a receber pressão de atores políticos. O senador Flávio Bolsonaro cobrou publicamente que Cármen se posicione contra Moraes. A ministra, porém, tem histórico de não antecipar votos e costuma afirmar que suas decisões são tomadas a partir dos autos e da Constituição.

Relatos publicados nos últimos dias indicam ainda que Cármen procurou Moraes para manifestar solidariedade diante da exposição provocada pela crise, sem que isso signifique compromisso com uma posição favorável ao ministro em eventual julgamento.

A tendência é que a influência de Cármen aumente à medida que os processos avancem para o plenário. Mais do que definir uma disputa pessoal, seus votos podem ajudar a determinar como o STF responderá institucionalmente à crise aberta pelo caso Master.