O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, recebeu de interlocutores mantidos sob anonimato informações de que dois servidores da autarquia poderiam ter recebido valores ligados a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O episódio foi relatado à Polícia Federal pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, em depoimento prestado no âmbito das investigações sobre o banco.
Reunião ocorreu em 7 de janeiro
De acordo com o relato de Ailton de Aquino, Galípolo o convocou para uma reunião às 14h30 de 7 de janeiro de 2026. O procurador do Banco Central Cristiano Cozer também estava presente.
Na reunião, o presidente do BC teria informado que recebera verbalmente, de interlocutores sob condição de anonimato, suspeitas de que Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana haviam recebido valores de Daniel Vorcaro.
Aquino afirmou à PF que decidiu ouvir os dois servidores ainda naquele dia. O episódio ganhou nova repercussão com a divulgação de documentos e depoimentos relacionados ao caso Master.
Servidores confirmaram negócios, mas negaram propina
Belline Santana relatou ter mantido relação comercial com o empresário Leonardo Palhares e mencionou pagamentos por um projeto voltado a jovens. Segundo a versão apresentada, havia prestação de serviços e ele não sabia que os recursos poderiam ter ligação com o Banco Master.
A Polícia Federal, porém, investiga se contratos desse tipo poderiam ter sido usados para justificar vantagens indevidas.
Paulo Sérgio Neves de Souza relatou a venda de um imóvel rural em Minas Gerais por cerca de R$ 4,5 milhões. A operação também passou a ser examinada por envolver pessoa ligada ao círculo empresarial de Vorcaro.
PF investiga atuação interna em favor do Master
Além das suspeitas sobre pagamentos, a Polícia Federal apura se servidores do Banco Central repassaram informações internas e atuaram para favorecer interesses do Banco Master durante processos de fiscalização.
Ailton de Aquino já relatou à PF preocupação com vazamentos sistemáticos dentro da autarquia. Segundo seu depoimento, a situação levou a direção a restringir o acesso a informações sensíveis relacionadas à liquidação do Master.
Mensagens apreendidas no celular de Vorcaro também indicam que o ex-banqueiro dizia ter contatos dentro do Banco Central. Esses registros são usados pela investigação para reconstruir sua rede de relações, mas precisam ser confrontados com outros elementos de prova.
Galípolo foi chamado a depor como testemunha
A Polícia Federal intimou Galípolo a prestar depoimento como testemunha na investigação. Também foram chamados o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, o diretor Ailton de Aquino e o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual.
O objetivo é esclarecer a atuação da área de fiscalização, a sequência de alertas recebidos pela direção e as providências adotadas diante das suspeitas envolvendo o Banco Master.
O HD Fato acompanha o caso em cobertura sobre os relatórios da PF e os desdobramentos do caso Master no STF e em matéria sobre as mensagens atribuídas a Vorcaro e a pressão sobre as instituições.
Alerta anônimo não equivale a prova
O fato de Galípolo ter recebido uma informação de fonte não identificada ajuda a explicar como as suspeitas chegaram ao comando do Banco Central, mas não comprova, por si só, a ocorrência de propina.
A investigação busca estabelecer a origem dos recursos, a finalidade dos contratos e das operações patrimoniais e se houve contrapartida em decisões ou informações internas da autoridade monetária.



