Imóvel na planta: o risco de a conta não fechar na entrega das chaves

Simulação mostra o peso dos juros no financiamento; saldo devedor, encargos e regras de distrato precisam entrar no planejamento da compra.

Comprar um apartamento na planta exige planejamento para além da entrada. Quando parte do preço fica para um financiamento futuro, o orçamento precisa comportar o saldo a quitar, os juros e as despesas da aquisição. Se essa conta não fechar, o comprador pode enfrentar a necessidade de renegociar ou encerrar o contrato.

O saldo a financiar merece tanta atenção quanto a entrada

Em uma compra que prevê a contratação posterior do crédito, conseguir pagar as parcelas iniciais não demonstra, por si só, que o financiamento caberá no orçamento. É necessário considerar quanto ainda será devido, quando esse valor deverá ser quitado e quais condições estarão disponíveis no momento da contratação.

Por isso, comparar somente a entrada ou a primeira parcela deixa parte importante da conta de fora. A capacidade de pagamento precisa ser avaliada para todo o compromisso, incluindo as despesas de morar no imóvel.

Quanto custaria financiar R$ 350 mil em 120 meses?

O exemplo abaixo usa a tabela Price, com pagamentos mensais iguais de principal e juros, primeira prestação após um mês e nenhuma amortização antecipada. A taxa de 14% ao ano é uma hipótese de cálculo, não uma oferta bancária nem uma indicação da Selic vigente.

Simulação ilustrativa de compra de imóvel de R$ 500 mil
Item Valor aproximado
Preço do imóvel R$ 500.000,00
Entrada R$ 150.000,00
Valor financiado R$ 350.000,00
Prazo 120 meses
Taxa efetiva anual adotada 14%
Prestação de principal e juros R$ 5.261,99
Soma das prestações R$ 631.438,37
Juros ao longo do prazo R$ 281.438,37
Entrada + prestações R$ 781.438,37

Os totais foram calculados antes do arredondamento da prestação para centavos. Também é importante distinguir o financiamento do preço total pago: a entrada de R$ 150 mil precisa ser somada às prestações. Ela não está incluída nos R$ 631,4 mil destinados ao pagamento da dívida simulada.

Selic e juros do financiamento não são a mesma taxa

Não basta substituir a taxa de um contrato pela Selic para estimar seu custo. A conta deve utilizar os juros efetivamente oferecidos pelo banco, o prazo, o sistema de amortização e as demais condições da proposta.

O Custo Efetivo Total, conhecido como CET, reúne os juros e as despesas consideradas na operação de crédito, como tarifas e seguros. Sua informação é disciplinada pela Resolução CMN nº 4.881.

Além de comparar o CET, o comprador precisa examinar os indexadores previstos no contrato. Uma simulação com taxa fixa não garante a trajetória futura de índices variáveis nem reproduz todas as condições que poderão existir quando o financiamento for contratado.

Desistir da compra pode ter consequências financeiras

O desfazimento de uma compra na planta não significa, automaticamente, receber de volta tudo o que foi pago. A Lei nº 13.786/2018, conhecida como Lei dos Distratos, disciplina hipóteses de encerramento dos contratos e prevê deduções e prazos de restituição.

As condições dependem da situação contratual e do motivo do desfazimento. A lei também exige que contratos de incorporação apresentem um quadro-resumo com informações como preço, entrada, parcelas, índices de correção, juros e consequências da rescisão.

O que colocar na conta antes de assinar

  • Valor da entrada, parcelas intermediárias e saldo que dependerá de financiamento.
  • Juros, prazo, CET e índices de correção previstos na proposta.
  • Tributos, registro, escritura, mudança e eventuais custos de acabamento.
  • Condomínio, IPTU e demais despesas mensais após a entrega das chaves.
  • Margem do orçamento para imprevistos e variações de renda.
  • Condições de renegociação, cessão e encerramento do contrato.

A decisão fica mais clara quando o comprador conhece o desembolso completo. A parcela que cabe hoje é apenas uma parte da análise: o saldo futuro e os custos adicionais também precisam caber no planejamento.

Fontes e metodologia